📱 Impor limites ou ensinar valores? Vanessa Lehm provoca a reflexão no blog

Impor limites ou ensinar valores?
texto de Vanessa Lehm, Assistente de Tecnologia Educacional do Colégio Carbonell

Cada vez mais, ouvimos que crianças e adolescentes “estão sem limites”, especialmente quando o assunto é o uso de celulares e telas. Casos recentes reforçam essa preocupação: uma criança que acordou de madrugada para jogar; um adolescente de 14 anos que perdeu a vida após um envolvimento emocional com uma inteligência artificial. Diante disso, a questão que se impõe é: estamos falando apenas de limites — ou da ausência de valores que sustentam esses limites?

Antes, as maiores preocupações dos pais eram visíveis e tangíveis: o fogo do fogão, a tesoura, o chão molhado, a rua à noite, o tempo frio. Eram perigos concretos, que se evitavam com atenção e presença. Eles ainda existem e são perigosos, mas hoje os principais riscos ganharam novas formas: manifestam-se nas telas acesas durante a madrugada, nas conversas virtuais com desconhecidos, nos vídeos sem supervisão e nos algoritmos que prendem e influenciam. O que antes era um “não mexa aí, é perigoso” transformou-se em um “deixa, ele está quietinho”. Contudo, o silêncio das telas pode esconder muito mais do que se imagina.

E os pais, onde estão?

É impossível, porém, falar sobre o excesso de telas entre crianças sem antes olhar para os adultos, que estão imersos nesse mesmo universo digital, respondendo mensagens, rolando o feed, acompanhando notícias ou distraindo-se com vídeos curtos. A presença, assim, foi se tornando fragmentada, dividida entre o que acontece na vida real e o que aparece na tela. Sem perceber, muitos têm oferecido uma atenção apressada e superficial, que substitui o olhar, o diálogo e a escuta. Consequentemente, quando os adultos se desconectam do convívio, as crianças se conectam sozinhas — muitas vezes, ao que não deveriam.

Essa dificuldade de manter a presença e estabelecer limites dentro de casa não é um fenômeno isolado. A pesquisa “Família e Valores Contemporâneos”, realizada pela Fundação Getúlio Vargas (FGV, 2023), revelou que 78% dos pais brasileiros acreditam que hoje é mais difícil impor limites do que antigamente. Entre as principais razões, destacam-se a culpa pelo pouco tempo com os filhos, o medo de gerar conflitos e a influência de modelos mais permissivos difundidos nas redes sociais. Ainda assim, o mesmo levantamento mostra que 90% dos pais reconhecem que impor limites faz parte da educação afetiva — o que indica que, mesmo cientes do dever, muitos se sentem perdidos sobre “como agir?”.

O que se sabe sobre o assunto?

Órgãos como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) oferecem orientações claras sobre o tempo de tela recomendado para cada faixa etária. Para crianças menores de 2 anos, a recomendação é evitar completamente o uso de telas. Entre 2 e 5 anos, o limite é de no máximo 1 hora por dia, sempre com supervisão e conteúdo educativo. Para crianças de 6 a 10 anos, o ideal é de 1 a 2 horas diárias; e, para adolescentes de 11 a 18 anos, o uso deve ser limitado a 2 a 3 horas por dia, excluindo o tempo de atividades escolares, sempre com pausas regulares e sem comprometer o sono ou as atividades físicas.

A UNESCO e o UNICEF também alertam que os valores familiares — como respeito, empatia, responsabilidade e diálogo — são pilares essenciais para a formação integral e a cidadania digital. A casa é o primeiro espaço de convivência ética, e o exemplo dos pais continua sendo o principal educador: o modo como se comportam no trânsito, nas redes ou nas relações diárias ensina mais do que qualquer discurso. Em tempos de conexões constantes e atenção fragmentada, o verdadeiro desafio das famílias é reconectar-se entre si, reconstruindo o vínculo e o sentido de presença que dá sustentação aos limites e aos valores.

Conforme ressalta Winnicott, psicanalista inglês, os limites não são barreiras, mas contornos que dão forma ao “eu” da criança. Ele afirma que “a criança precisa experimentar a frustração dentro de um ambiente seguro para desenvolver sua capacidade de lidar com o real”, lembrando que presença, regras claras e proteção não sufocam, mas estruturam emocionalmente os filhos.

Em abril de 2025, o Vaticano divulgou uma mensagem em vídeo do Papa Francisco a respeito do uso das tecnologias. O pontífice ressaltou que “a tecnologia deve ser usada para melhorar a vida das pessoas e conectá-las como membros de uma família humana” e acrescentou: “há algo de errado se passamos mais tempo no celular do que com outras pessoas”.

Ensinar valores é, portanto, ensinar a lidar com a tecnologia: não apenas como um elemento a ser controlado, mas como algo a ser integrado com responsabilidade à vida familiar. É trabalhoso! É preciso conversar claramente sobre as regras e os seus motivos, revisar os combinados conforme a idade e as necessidades e definir os limites em família — explicando o porquê e ouvindo as objeções e sugestões dos jovens. É importante também aceitar a flexibilidade: as regras devem acompanhar as fases do desenvolvimento da criança, sem perder coerência e propósito.

Tecnicamente falando

Do ponto de vista técnico, existem diversas ferramentas de controle parental desenvolvidas para auxiliar pais e responsáveis na gestão do uso de dispositivos digitais. Essas soluções permitem a implementação de barreiras e limites, que podem variar desde o bloqueio completo de funcionalidades ou aplicativos até a restrição de acesso a conteúdos específicos, além de oferecer recursos de monitoramento, registrando o tempo de uso, os aplicativos acessados e o histórico de navegação. É fundamental ressaltar que a eficácia dessas ferramentas reside no seu uso como mecanismo de regulação e acompanhamento, e não meramente de bloqueio. A intervenção precisa de direcionamento, para que se desenvolvam hábitos digitais saudáveis e, sempre que necessário, ajustes comportamentais, promovendo o aprendizado sobre o uso consciente da tecnologia.

As escolas neste contexto

As escolas, por sua vez, têm um papel crucial nessa equação. No Colégio Carbonell, por exemplo, os estudantes são provocados a deixar as telas e pensar no brincar desde cedo. São apresentados à importância da segurança on-line, da ética nas interações, da proteção de dados e do uso responsável das plataformas. Essa ação pedagógica complementa o trabalho familiar: enquanto a escola traz conhecimento técnico e social sobre a vida digital, a família oferece a base, o fundamento ético, transformando a prática no dia a dia. E, mais uma vez, a cooperação entre casa e escola — com comunicação aberta e estratégias alinhadas — multiplica a eficácia das ações protetoras e educativas.

Referências: OMS — Diretrizes sobre atividade física, comportamento sedentário e sono para crianças menores de 5 anos; SBP — Manual de Orientação #MenosTelas #MaisSaúde; Governo Federal do Brasil — Uso de telas por crianças e adolescentes; UNESCO & UNICEF — Crianças, adolescentes e telas: guia sobre usos de dispositivos digitais; Winnicott, D. W. — obra sobre limites e desenvolvimento infantil; Papa Francisco — mensagem em vídeo sobre o uso das tecnologias (abril de 2025).

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