Autonomia: um aprendizado que começa nas pequenas coisas
texto de Priscila Kyomen, Coordenadora Pedagógica da Educação Infantil no Carbonell
No Ăşltimo Dia do Brinquedo, eu descia as escadas com uma criança que carregava dois companheiros inseparáveis: um ursinho e um macaco! Ao vĂŞ-la equilibrando os dois com cuidado, ofereci ajuda. Ela pensou por um instante e respondeu com muita segurança: “Eu consigo levar o ursinho. VocĂŞ leva sĂł o macaco?”. Sorri e aceitei o acordo. Seguimos assim: ela com o ursinho, eu com o macaco.
A cena Ă© simples, mas poderosa, pois revela algo muito precioso no desenvolvimento das crianças: a autonomia que nasce quando alguĂ©m confia que elas sĂŁo capazes. Maria Montessori dizia “nunca ajude uma criança em uma tarefa que ela sente que pode realizar sozinha”, frase que nos convida a uma reflexĂŁo importante: a autonomia Ă© muito mais do que um objetivo pedagĂłgico — Ă© um exercĂcio cotidiano.

E, muitas vezes, esse exercĂcio exige algo que para os adultos pode ser desafiador: dar um passo para trás e apenas observar! Quando a criança consegue, o adulto nĂŁo interfere. Se a criança consegue usar o banheiro; se a criança consegue tomar banho; se a criança consegue se secar; se a criança já consegue se vestir ou calçar os prĂłprios sapatos, o adulto sai da frente e permite que a criança faça.
Quando a criança consegue tentar, o adulto também não se apressa. Observa, espera, sustenta o tempo da experiência. Isso pede confiança e, muita, muita paciência. O adulto precisa intervir quando há risco real. Se não for este o caso, cada tentativa é um pequeno laboratório de descobertas.
A rotina, na Educação Infantil aqui do Carbonell, é cuidadosamente planejada para cultivar essa autonomia. Ao longo do dia, as crianças:
- tiram e colocam o prĂłprio tĂŞnis;
- organizam seus materiais;
- abrem suas lancheiras;
- servem-se e se alimentam.
Ações que podem parecer pequenas, mas sĂŁo grandes exercĂcios de crescimento, desenvolvendo nas crianças coordenação motora, senso de responsabilidade, perseverança e, principalmente, confiança em si mesmas. Quando fazemos por elas aquilo que já conseguem fazer sozinhas, mesmo com a melhor das intenções, acabamos interrompendo esse processo. Ajudar demais, muitas vezes, atrapalha!
Autonomia nĂŁo significa largar a criança Ă prĂłpria sorte, nem exigir independĂŞncia antes da hora. Ensinar e praticar autonomia Ă© outra coisa! É acompanhar de perto, acreditar profundamente e ter coragem de esperar, porque cada vez que uma criança diz “eu consigo!”, algo muito importante está acontecendo no seu desenvolvimento. E, quando o adulto responde “eu confio”, o crescimento ganha espaço para acontecer.


